Em fevereiro de 2002, o site de
segurança brasileiro Securenet foi invadido e desfigurado. O fato foi
noticiado e muita gente soube do ocorrido. Mereceu até uma nota do
Attrition, que comentou que "é sempre irônico quando uma companhia ou
site de segurança é desfigurado" e que a equipe "aguarda o dia em que
fará o mirror do próprio defacement". O que permaneceu longe do
conhecimento do grande público foi o que se seguiu ao ato - uma guerra
no "underground".
Psaux, o jovem responsável pela
desfiguração, deixou uma mensagem na página principal do Securenet,
acusando os "hackers" brasileiros de serem incompetentes. Apesar de
também ser brasileiro, ele faz parte de um grupo composto por
americanos, canadenses e europeus, o Hackweiser.
Desde o episódio, páginas foram
publicadas com uma (suposta) foto sua, ofensas foram escritas contra
ele. Mas Psaux não deixou por menos e invadiu outros endereços,
publicando mais críticas, dirigidas a seus detratores. Até uma nova
mensagem foi deixada para o Securenet ("espero que vocês parem de
blefar, e nos esqueçam. Isso é caso perdido, e se vocês continuarem com
a guerra, só vocês têm a perder).
Psaux é uma figura um tanto
arredia, que mora em Salvador. Ele já foi chamado de "hacker apaixonado"
em algumas reportagens, porque invadiu centenas de sites de uma só vez,
deixando uma mensagem de amor para sua namorada. Foi difícil encontrá-lo
(ao contrário da maioria, ele não deixa seu e-mail nas desfigurações).
Mas, a partir do momento em que resolveu dar a entrevista online, em um
canal de IRC, não poupou respostas e autorizou a publicação de todas
elas. Leia abaixo sua opinião sobre os chamados grupos hackers
nacionais, seus motivos ao desfigurar o Securenet, e uma surpreendente
auto-análise (ele próprio não se considera hacker, e sim um "pichador
virtual").
Pergunta - Por que você desfigurou
o Securenet?
Psaux - Porque eu quis. Muitos pensavam que era
impossível e eu mostrei que não era.
P - Havia algum problema pessoal
com o Thiago Zaninotti (editor do site)? Você o citou nominalmente, pelo
seu apelido, c0nd0r, e ainda colocou uma mensagem oculta no código da
página dizendo que tinha feito isso porque ele era lamer (gíria que tem
o sentido de "amador" no mundo hacker) e gay.
Psaux - Não, não houve
motivos pessoais. Quanto à mensagem oculta, aquilo foi uma brincadeira,
até porque não tenho nada contra gays.
P - Porque você chamou os hackers
brasileiros de incompetentes? Você escreveu: "so, 'brazilian hackers'
don't have skill".
Psaux - Eu chamei [de incompetentes] os
pseudo-hackers brasileiros. Aqueles que se autodenominam "brazilian
hackers" nos sites de mirrors. Para isso usei aspas.
P - Mas o pessoal ficou bastante
ofendido, tanto que foram publicadas mensagens ofensivas a você, ironias
em sites como Insecurenet, páginas foram desfiguradas nos EUA, falando
mal dos americanos e de seu grupo, etc.
Psaux - Se a carapuça serviu,
é porque são lamers mesmo.
P - Defacements desse tipo
continuam acontecendo. Um dos mais recentes foi a invasão ao Instituto
de Planejamento Urbano de Florianópolis, feito por Reflux.
Psaux -
Normal. E eu não sei quem é esse Reflux.
P - Mas ele citou um endereço em
que consta uma foto sua, dados pessoais, etc.
Psaux - Eu pensei que
eles estivessem falando mal do g0t-milk. Porque vi a foto do g0t-milk
numa página aí, dizendo que era eu.
P - A foto não é sua?
Psaux -
Essa foto não é minha, não. É do g0t-milk da Efnet, líder do ph33r the
b33r.
P - E o telefone também não é seu?
Psaux - Não, se quiser comprovar pode telefonar, o código de Salvador é
71, ali é 75, código do interior.
P - E o nome Igor Pereira?
Psaux - Também não. Igor é o nome do Kewron, e nem é Pereira, eu acho.
Houve alguma confusão.
P - Você tem idéia de quem foi o
autor dessa página?
Psaux - Não, ninguém assinou, portanto nem dei
atenção.
P - Dizem que o Kewron não queria
que você colocasse o nome dele no defacement do Securenet e você
colocou. Isso é verdade?
Psaux - Não. Se ele não quisesse, não sairia
falando do defacement para todo mundo.
"...No Brasil não há leis específicas que
poderiam
enquadrar alguém por esse ato."
P - Você não se incomodou com as
críticas?
Psaux - Quanto aos protestos, fiquei feliz, porque isso
mostra a todos que não somos iguais. Críticas vindas de quem não tem
habilidade? Não, não. Por que me incomodaria?
P - Porque você desfigurou um site
brasileiro e colocou várias mensagens falando do Insecurenet, do f0ul e
do KTX (do grupo Silver Lords) e novamente do Securenet. O mirror está
em http://defaced.alldas.de/mirror/2001/03/03/www.coopera1.com.br.
Psaux - Porque eles estavam falando asneiras a meu respeito. O
Insecurenet, quando desfigurei o Securenet, pediu uma entrevista, eu não
cedi. Esse deve ter sido o problema deles. Sem contar que alguns membros
do Insecurenet são os mesmos do Anti-Security Hackers (?). Eles vestiram
a carapuça. Quanto aos outros, disse aquilo porque são lamers e estavam
falando asneiras também.
P - O Securenet enviou um e-mail
depois do defacement, desculpando-se pela interrupção dos serviços e
dando algumas explicações, entre elas, a seguinte: "após todo o
procedimento de 'forensics', detectamos as evidências necessárias para
uma investigação criminal, entregando as informações consolidadas às
autoridades". Você não teme um processo judicial por causa disso, ou
mesmo ser preso?
Psaux - Não. Primeiro porque eles não têm prova
alguma. Não têm como provar que fui eu. Segundo porque no Brasil não há
leis específicas que poderiam enquadrar alguém por esse ato. E se eu
disser agora que eu não fiz o defacement no Securenet? Pronto. Não fui
eu que fiz.
P - Bem, o pessoal do Inferno.br
foi preso no ano passado...
Psaux - Não, eles foram encontrados, não
foram presos.
P - Mas estão respondendo a um
processo.
Psaux - Eu não sabia disso, mas mesmo assim não tenho medo.
Menor ser preso no Brasil é novidade pra mim.
P - Qual é a sua idade?
Psaux -
Eu sou menor.
P - Você não gostaria de dizer sua
idade?
Psaux - Seria necessário?
P - Necessário, não, mas não vejo
problema em você dizer.
Psaux - Eu sou menor. Isso basta.
P - Você se considera melhor do
que os outros hackers brasileiros, já que você desfigurou o Securenet,
que parecia impossível. Ao menos você afirmou que os outros achavam
impossível.
Psaux - Hackers? Quais hackers? Melhor em que sentido? Do
que os verdadeiros hackers brasileiros ou os pseudos? Os pseudos são
aqueles que aparecem nos sites de mirrors, geralmente em grupinhos,
desfigurando caixas NT ou explorando vulnerabilidades idiotas de Linux e
não sabem sequer recompilar um kernel. Eu acho que esses aí não teriam
capacidade para desfigurar o Securenet e se o fizessem já teriam sido
descobertos. Eu não questiono se eles desfiguram muitas páginas.
Questiono se eles têm mesmo conhecimento do sistema.
P - Existe alguém ou algum grupo
no Brasil que você considera hackers verdadeiros?
Psaux - Sim,
existem alguns brasileiros muito bons, como é o caso do prórprio c0nd0r,
do Securenet. Existem muitos que não são "hackers" mas têm muito
conhecimento.
P - O c0ndor é hacker ou um
especialista em segurança?
Psaux - Isso não importa. Eu sei que ele
tem conhecimentos profundos na área de segurança e sistemas
operacionais. Não gosto muito do termo "hacker". Isso é coisa para
filmes de ficção. Há dois tipos de pessoas: as que "conhecem" e as que
"não conhecem". Alguns "conhecem", outros não (a maioria).
P - Você se considera um
verdadeiro hacker? Você "conhece"?
Psaux - Eu não sou hacker. Eu
trabalho na área e acho que tenho o conhecimento necessário para
trabalhar e não ficar atrás no mercado.
P - Você trabalha na área de
segurança de sistemas? Em uma empresa?
Psaux - Sim.
P - E você estuda também?
Psaux
- Estudo sim.
"Se eu quisesse alertar eu não enviava os defacements para
sites
de mirrors. Somente o administrador precisaria saber."
P - Você disse que não gosta muito
do termo hacker. Como você chamaria quem desfigrua páginas na internet?
Psaux - Defacer, "desfigurador" ou "pichador virtual", tanto faz.
P - Então você é um defacer, ou um
pichador virtual?
Psaux - Se eu desfiguro páginas, eu sou.
P - De onde vem o seu nick? o que
é psaux?
Psaux - Pode ser de /dev/psaux ou a junção de ps aux. /dev/psaux
é o device de mouses ps2 no Linux; ps é o comando para listar processos
ativos e aux uma sintaxe.
P - Por falar nisso, qual foi a
brecha de segurança que você encontrou no Securenet e o exploit usado?
Psaux - Não sei. Como eu disse, eu não invadi o servidor do Securenet.
P - O pessoal está chamando você
de psux ("sux" é uma gíria que significa que algo não presta). Isso não
o incomoda?
Psaux - Incomodar? Por quê? Acho que ser "sux" para eles
é uma coisa legal. Mostra que sou o oposto deles.
P - Em nenhum momento você se
arrependeu do defacement do Securenet? Se por um lado você demonstrou
capacidade, por outro ganhou vários inimigos no Brasil, não é?
Psaux
- Não me arrependi não. Hoje meus inimigos não têm força e eu só me
divirto.
P - Você já conversou com o c0nd0r
depois disso? Aliás, você conversava com ele antes? Você o conhece?
Psaux - Eu não conversei, e não tenho amizade com ele, não.
P - Há rumores de que você foi
expulso do Hackweiser e que estaria com planos de entrar para o Silver
Lords. Isso é verdade?
Psaux - Mentira. Eu ainda estou no Hackweiser.
Estou querendo sair, vou me afastar de defacements. Vou usar meu tempo
para outra coisa. Eu nunca entraria no Silver Lords.
P - O Hackweiser só tem você e o
Igor, digo, Kewron, de brasileiro, não é? O resto do pessoal é formado
por canadenses, americanos e europeus. É isso? Quantas pessoas fazem
parte do grupo?
Psaux - Sim, é isso. E 11 pessoas fazem parte do
grupo.
P - Por que alguém desfigura
páginas, ou melhor, porque você o faz? Qual o objetivo e a sensação ao
se fazer isso? É uma viagem de poder?
Psaux - Eu desfiguro porque
gosto que as pessoas leiam o que eu quero falar. Se você me der um
programa no horário nobre da TV ou uma página numa revista para eu
escrever, eu paro de desfigurar.
P - Então você não usa a desculpa
de alertar para a segurança dos sistemas?
Psaux - Claro que não. Se
eu quisesse alertar eu não enviava os defacements para sites de mirrors.
Somente o administrador precisaria saber.